Ou melhor: usando a Teoria dos Sistemas como Linguagem comum?mergulho_mar_vermelho.jpgCCitando de novo Delattre (1990), “a noção de sistema é uma das mais gerais que se conhece. (…) Qualquer Disciplina e qualquer técnica se confrontam com sistemas. Este conceito permite-nos, portanto, dispor de um substrato comum a uma grande variedade de fenómenos, permitindo uma abordagem unificada.”
Ora, refere Morais (2005), [como] “é sabido, um conceito apresenta-se no âmbito de uma teoria. Teorias não faltam que usem o conceito de sistema, proliferando na Física, na Biologia, na Psicologia, na Sociologia, na Administração, em tantos campos do saber científico. Ou de Teorias que usem o conceito de sistema como sua matriz essencial: Teoria Geral dos Sistemas (ou Teoria do Sistema Geral), Cibernética, Autopoiese, etc.”
Em particular, nas teorias sistémicas das organizações, adoptou-se frequente e brilhantemente o conceito de sistema aberto, integrado e auto-regulado como central na descrição, explicação do funcionamento e proposta de intervenção orientada. Com consequências significativas na modelação dos sistemas de informação de suporte à auto-regulação.

Ora o conceito de Autopoiese vem aparentemente contestar, não a aplicação do conceito de sistema mas a modelação sistémica dos seres vivos e das organizações sociais como sistemas abertos, na medida em que afirma expressamente ser o seu fechamento uma propriedade essencial: “conceito teórico e experimental conhecido hoje por Autopoiese (Autopoiesis) (…) influencia diferentes campos do pensamento e da acção (Biologia, Economia, Direito, Sociologia, etc.). Segundo aqueles autores [Maturana & Varela] Autopoiese é uma Ciência (com derivações Filosóficas) que explica o funcionamento dos seres vivos (daí a Biologia e as metáforas nas diferentes direcções). Os seres vivos terão “autoprodução”, autonomia, capacidade de boot-strap, fechamento operacional na sua praxis. (Morais, C., 2005)

Por outro lado, embora as teorias da Complexidade apareçam frequentemente, na literatura científica, em ruptura com as teorias dos Sistemas – na medida em que estas identificam como características relevantes, para os seus sistemas, as finalidades enquanto relações invariantes com o ambiente, as quais garantem a sua manutenção ou não enquanto sistemas – as teorias da Complexidade, admitindo ainda como conceito central o de sistema, definem sistemas complexos como sendo “aqueles onde elementos e partes constitutivas interagem dinamicamente e de forma suficientemente intrincada, para que os resultados não possam a nenhum momento ser previstos, em que tantas variáveis estão simultaneamente a agir e rectroagir, entre si e dentro do sistema, para que o seu comportamento global só possa ser interpretado como consequência emergente da soma contextual da miríade de comportamentos neles integrados“ (segundo Casti, citado em Guedes, F., 1999).
A Teoria (Geral) de Sistemas ou Teoria do Sistema Geral segundo Le Moigne – uma teoria (ou feixe de teorias) ainda em desenvolvimento, cujo aparelho conceptual tem vindo a ser maturado ao longo da segunda metade do século XX – é, de facto, bem complementada pela Teoria da Autopoiese, “permitindo uma leitura mais alargada” (Magalhães, R., 2005-2) daquela quando aplicada às organizações.
Pela simplicidade dos conceitos subjacentes, exprimíveis com recursos mínimos da Teoria de Conjuntos, usar-se-á criticamente, a linguagem dos Sistemas – e dos Processos que descrevem/explicam o seu funcionamento - como suporte à abordagem interdisciplinar que se entende necessária em projectos de investigação contextualizada decorrentes da actividade reflexiva em curso no NIEC.
Aliás, o posicionamento não é novo. Continuando a citar Delattre, “Foi exactamente a partir deste conceito fundamental [o sistema] que se desenvolveram a maior parte das tentativas interdisciplinares durante os decénios que nos precederam. (…) Assemelham-se a todos os esforços de síntese, cuja utilidade foi reconhecida em todas as épocas como forma de compensar as desagregações provocadas pelos progressos da análise. É certo que a ciência não pode progredir senão por esta combinação de uma análise cada vez mais fina e de uma síntese que permite reencontrar a unidade a partir dos elementos revelados pela análise.” (Magalhães, R., 2005-2)
A modelação matemática constituir-se-á esteio da prática de investigar, suportando-se a articulação indispensável entre investigação quantitativa e qualitativa na categorização e análise de frequências modeláveis pela Teoria de Conjuntos – e pela Teoria Frequencista das Probabilidades – consequentemente interpretáveis na linguagem dos Sistemas.
Procurar-se-ão garantir assim, concomitantemente, os enquadramentos teóricos e instrumentais que suportem uma análise suficientemente fina e rigorosa, verificando a cada passo a sua adequação ou afastamento face à linguagem unificadora adoptada, buscando construir/desconstruir/reconstruir a cada passo um todo coerente e legível, que permita descrever os fenómenos observados, as relações aduzidas e que fundamente a intervenção que se pretenda gizar.


Ventura, T. 2011
___Imagem em http://alexandra-santos.blogspot.com/2009/12/os-corais.html