Ou melhor: Investigação Interdisciplinar Contextualizada? antartida.jpgEEntende-se [1], como Mialaret, que, no caso das Ciências da Educação, “não é por se tratar de ciências humanas, de um domínio onde se proporciona o encontro de indivíduos e grupos, de um domínio onde a subjectividade se introduz sub-repticiamente, que é crível que possamos fazer não importa o quê sob a denominação de investigação científica” (Mialaret, G., 2004) e assume-se, como ele explicita, que se a finalidade principal da investigação científica é “melhor conhecer, explicar, compreender o mundo em que vivemos”, ainda que “sem querer, custe o que custar, estabelecer relações directas, imediatas, actuais, com as pesquisas feitas, é evidente que se estas não permitem, a curto ou médio prazo, uma certa melhoria da prática, podemos questionar-nos, com razão, sobre a sua utilidade”, ressalvando o caso das investigações de tipo histórico, cujos resultados em relação com a prática futura se colocam a mais longo prazo.”
Assume-se também “que a docência, no contexto da educação universitária, é precisamente um espaço privilegiado de exercício da actividade de investigação e de relacionamento de curto prazo com a prática docente, numa relação dialéctica que a ambas potencia. A investigação contextualizada, em educação universitária, é, por isso, uma via potencialmente promissora.” Uma via que não esquece antes valoriza a indissociável relação entre os resultados da investigação e os processos e o meio em que estes são gerados.
Pelo que se procurará, “a par do rigor dos processos de investigação, a lisibilidade partilhada” (Rayou, P., 2004) dos mesmos processos e resultados, na medida em que, como Mialaret bem relembra, “é impossível a reprodução total [de um ponto de vista estrito] das experiências relatadas numa situação de educação”. (Rayou, P., 2004)
Aliás, como afirma Delattre (1990), “A finalidade de toda a ciência é chegar a enunciados precisos, desprovidos de ambiguidade, ligados entre si num quadro descritivo ou explicativo coerente e susceptíveis de serem objecto de amplo consenso. Estes objectivos requerem, simultaneamente, a observação conveniente dos factos, a definição de conceitos bem adaptados ao domínio de estudo escolhido e uma elaboração teórica que, a partir destes conceitos, forneça a linguagem da ciência considerada. (…) Com efeito, explicar os fenómenos é, em definitivo, explicitar as ligações que existem entre eles, mostrar que quando certos factos se produzem há outros que necessariamente ocorrem.”
Ora, relativamente à construção de consensos, reconhece-se que “a lógica está intimamente associada às condições que despertam em nós o sentimento de evidência que está na base do acordo que podemos conceder aos enunciados que nos são propostos. (…) Mas a lógica pode aplicar-se a dados e a realidades muito diversas. Pode também ser mais ou menos sofisticada, quer dizer, comportar um maior ou menor número de operações e de regras. (…). Cada disciplina científica, conforme os seus próprios conceitos fundamentais e segundo as operações às quais estes se prestam é assim levada a utilizar uma lógica mais ou menos elaborada. Todos os cambiantes são possíveis, entre o rigor extremo da linguagem matemática mais refinada e as aproximações da linguagem corrente. Aquilo que o matemático tem necessidade de demonstrar, pode revelar-se evidente no quadro de uma lógica menos exigente. Inversamente, não é raro, em certas disciplinas, usarem-se noções que, pela sua imprecisão semântica, podem parecer deficientes aos especialistas das ciências exactas. (…) A cada contexto correspondem conceitos próprios e uma lógica fraca ou forte”.
Daí decorre que cada disciplina constrói o seu domínio de conhecimentos relativamente coerente e coordenado mas demasiado fechado sobre si mesmo. E este fecho dificulta fortemente qualquer abordagem científica interdisciplinar.
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Assume-se mais: que a riqueza do trabalho enraízado num Centro de investigação se suporta precisamente na potencial articulação de uma pluralidade de visões que, não elidindo a diversidade de contextos científicos e sócio-culturais, antes a explorem e transcendam. Considera-se assim, indispensável - sem menosprezo da relevância contextual adequada a cada projecto de investigação - a eleição de um quadro de referência comum, suficientemente consensual e maduro, para permitir uma interacção científica crescentemente rigorosa e frutuosa. Dele se ocupam os sub-capítulos subsequentes.


Ventura, T. 2011





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