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À impossibilidade de repetição de uma mesma experiência educativa exatamente nas mesmas condições alia-se a grande diversidade e riqueza de contextos em que essas experiências se realizam hoje no mundo, vistas e refletidas por grande diversidade de investigadores. Mas, se tal diversidade e riqueza podem e devem ser exploradas numa perspetiva contextual, insistindo no que cada enfoque tem de único, é também de realçar quanto o confronto de perspetivas e enfoques, de um ponto de vista comparativo, é igualmente um outro olhar, muito valioso.

Decorrem na UFP cerca de 60 estudos de Mestrado (2010/2012 e 2011/2013) que abordam em diferentes contextos e regiões - dos Açores à Madeira, de Ponte de Lima e Porto ao Algarve - e com diversas metodologias, o estado e os processos de Inclusão nas Escolas e na Sociedade portuguesas. Estes estudos beneficiam de uma orientação diversificada mas com práticas de trabalho colaborativo investigativo que permitem um aprofundamento comparatista de invulgar alcance.

Na obra magna sobre as atuais tendências, perspetivas e métodos em Investigação Comparatista em Educação (para muitos autores Investigação em Educação Comparada), publicada em Abril de 2010 sob a direção de Bray, Adamson e Mason, cita-se como ainda válida a opinião de Kandel (1955) segundo a qual o valor preponderante de uma abordagem comparatista, para responder a um mesmo tipo de problemas, reside na inventariação e análise das causas que os provocaram, na comparação das diferenças entre os sistemas onde se observam e dos pressupostos a estes subjacentes, bem como no estudo e confronto crítico das soluções que em cada contexto/sistema foram encaradas, aplicadas ou avaliadas.

Ferreira, A. G. (2008), realça, aliás, que a Educação Comparada só se afirmou com dignidade académica no século XX e que o seu desenvolvimento se fez sob o signo da diversidade de abordagens, defendendo uma abordagem socio-dinâmica da Educação Comparada, que pode “dar sentido aos processos educacionais, elucidando, nomeadamente, sobre as relações espaciais, as interdependências com outros sectores da sociedade, a situação e as implicações da evolução histórica, as possibilidades e as exigências tecnológicas, a dimensão da consciência e da mobilização ideológica, cruzando dados e metodologias”. Referindo-se, nomeadamente, aos mais recentes enfoques diferenciadores - das abordagens funcionalistas-estruturalistas (Kazamias, 1972), da resolução de problemas (Holmes, 1965) à sócio-histórica (Pereira, 1993, Schriewer, Pedró, Popkewitz, 1993, Nóvoa, 1995) - conclui que se deve considerar a Educação Comparada como “componente pluridisciplinar das Ciências da Educação, que deve debruçar-se comparativamente sobre dinâmicas do processo educativo considerando contextos diversos definidos em função do tempo e/ou do espaço, de modo a obter conhecimentos que não seriam possíveis alcançar a partir da análise de uma só situação. (…) um saber que resulta da interpelação, através da comparação, da educação em seus múltiplos aspectos, situados em contextos diferentes, captados e analisados com recurso a técnicas e metodologias providenciadas por outras ciências quando para tal forem consideradas as mais adequadas pelos comparatistas.” E acrescenta “é de fundamental importância que a interpelação se faça a partir da necessidade de se compreender a educação e que da comparação resulte conhecimento diferente do produzido por outra ciência.”

Wolhuter, C. (2010) reconhece, após análise dos artigos publicados em duas das mais reputadas revistas em Educação Comparada, a Éducation Canadiènne et Internationale e a Comparative Education Review, desde a criação das revistas até 2007 (respetivamente 1957 e 1972 artigos), que, a par de uma efetiva e surpreendente consistência teórica e prática dos estudos publicados, há a realçar o grande potencial de diversificação e aprofundamento, quer nos níveis de análise, quer nos contextos geográficos quer nas metodologias educativas visadas.

No que se refere aos níveis de análise, usando o modelo de Bray e Thomas (1995) com os níveis 1- Regiões / Continentes, 2 - Países, 3 - Estados / Províncias, 4 - Distritos / Administrações Locais, 5 - Instituições / Escolas, 6 - Turmas, 7 - Indivíduos, Wolhuter constatou que todos os níveis estão representados, com exceção do nível individual, sendo os estudos ao nível de país os mais numerosos desde o início do período coberto (66% nos últimos 5 anos). Aliás, os artigos nos níveis Instituição / Escola e Turma só apareceram em massa (33%) no período dos últimos 5 anos.

No que se refere às unidades de análise, embora ainda seja clara a larga predominância de estudos sobre uma só unidade de análise, verifica-se já alguma tendência para o alargamento do nº de unidades analisadas (de 100% de estudos unitários, nos primeiros anos para 71% nos dois últimos períodos analisados), recomendando o autor o reforço desta linha, dado o seu valor acrescido.

No que se refere às regiões envolvidas verifica-se grande predominância de estudos comparativos sobre regiões/países em vias de desenvolvimento ou sobre países com grandes massas de emigrantes. No que se refere aos modos de educação, verificou-se serem os estudos sobre educação formal largamente predominantes, apontando o autor a importância do alargamento dos estudos à formação ao longo da vida, incluindo aí em particular a educação pré-escolar e a formação a distância (online).

Quanto aos temas focados classificou-os o autor em três grupos: os que abordam as implicações dos sistemas sociais no sistema educativo, os que abordam as relações intra-sistema educativo e os que abordam os impactos deste nos sistemas sociais. Constata o autor que os comparativistas olham pouco para dentro do sistema educativo e muito mais para as relações da sociedade com este sistema, considerando ser aquela lacuna uma das que é imperativo colmatar.

Esta perspetiva já era apontada por Rui Canário (2006), em artigo publicado no primeiro número da revista Sísifo, número dedicado à Educação Comparada, referindo a necessidade de renovação metodológica no campo desta, “um trabalho permanente sobre os grandes problemas para os quais buscamos a construção de respostas, sempre provisórias, e que orientam a nossa actividade de investigação individual e colectiva” acrescentando que o “grande problema que não poderá sair do horizonte das nossas interrogações é o do questionamento do sentido da educação, e portanto de uma forte dimensão filosófica e política na teorização e análise empírica das práticas e das políticas educativas.”

Aliás, na época da globalização e da governança partilhada em larga escala, as perspetivas hetero ou auto-avaliadoras e comparatistas assumiram naturalmente um rumo de desenvolvimento promissor mas que exige hoje o maior rigor - nomeadamente ao nível metodológico - e ao qual nenhum grupo de investigadores em educação poderá ficar alheio. Olsen & Lie (2006), no interessante artigo “As avaliações internacionais e a pesquisa em educação: principais objectivos e perspectivas” mostram como se desenvolvem várias linhas de investigação primária e secundária com base em estudos internacionais de larga escala como o PISA e o TIMSS, realçando que, “de objetivos inicialmente de investigação em educação se evoluiu para a construção de recursos em indicadores pedagógicos de controlo e desenvolvimento de políticas educativas nacionais” numa clara demonstração do vasto potencial aplicável em estudos complementares e comparativos, a partir das grandes bases de dados internacionais.

A mesma perspetiva ressalta dos Proceedings do OECD/CERI regional seminar for the German-speaking countries (2007), “Educational Monitoring, Comparative Studies, and Innovation: from evidence-based governance to practice”
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Em Portugal o número de investigadores em exercício em Educação Comparada ainda é escasso mas com autores muito significativos como Nóvoa (1992, 1995, 1998, 2001, 2002, 2003), Canário (2006), Carvalho (2000, 2004), Bastos (2002), Correia e Gallego (2004), Madeira (2003, 2005, 2007)
Espera-se que, nas atividades do NIEC, as perspetivas comparatista e hetero ou auto avaliadoras tenham um lugar de relevo.

Ventura, T. 2011



Imagem em http://atletismo.no.sapo.pt/rosa3.htm